Os cantos e encantos da Chapada Diamantina-Parte 1

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A Chapada Diamantina

Não me lembro mais onde li essa frase: “Se a Chapada Diamantina for seu número, pode ter certeza que voltará muitas vezes”. Voltei com essa certeza.

A Chapada Diamantina se situa  no centro do estado da Bahia. Com uma área equivalente ao território da Holanda pode ser explorada a partir de diferentes bases. Lençóis é considerada a  mais bem estruturada.

“A natureza é bela. Mas uma beleza agressiva mitigada pelo perfume das flores. Nas densas matas afloram orquídeas de exóticas formas e matizadas cores. Por entre as rochas nuas, a vegetação aflora em tufos como um milagre divino. É um mundo estranho e misterioso a esconder riquesas incalculáveis: os diamantes”-Rennée Lefévre

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Detalhes da natureza na Chapada Diamantina  (Fotos: Camila Reis, Fernanda Moretzsohn e Ana Penteado)

Dessa primeira vez optamos por explorar bem a parte norte da Chapada, por isso nos hospedamos em Lençóis. Os locais que visitamos estão circundados no mapa abaixo.

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Mapa da Chapada Diamantina

Lençóis

Nossa escolha de hospedagem foi a Pousada Pouso da Trilha. Um charme. Excelente localização, atendimento e instalações. A proprietária Luan é uma simpatia e adepta de escaladas. Depois que vi os músculos da moça, voltei de lá convencida a experimentar essa modalidade física (rs). No café da manhã todo dia tem novidade. Matei a saudades do mingau de tapioca e provei o bolinho de estudante. Se quiser as receitas é só pedir.

Ainda existe aquele costume interiorano da entrega de leite de fazenda nas casas. Quantos litros você quer?

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A Luan, proprietária da pousada Pouso da Trilha, observa o entregador de leite.

Existem duas versões para a origem do nome dessa pequena localidade. A primeira é a de que quando os garimpeiros  chegaram levantaram muitas tendas que de longe pareciam lençóis. A segunda é que o nome da cidade proviria da aparência das águas espumantes sobre  o lajedo do rio que se assemelhavam a lençóis estendidos na serra.

A cor da água e a espuma do Rio Lençóis (e dos outros cursos de água na área) impressionam imediatamente os turistas. Essa coloração é devida ao material solúvel extraído das plantas em decomposição. A espuma também é uma manifestação natural dos mesmos compostos orgânicos que colorem a água.

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Trecho para Cachoeira do Sossego

Mas vamos ao que interessa. O que fazer e ver na cidade?

Flanar pelas ruas de Lençóis já é um programa e tanto. À noite lampiões e velas iluminam as ruelas estreitas. Sobre os lajedos irregulares das calçadas e das ruas,  as mesinhas dos restaurantes titubeiam, sem contudo incomodar os clientes, que  já estão embriagados pela energia e atmosfera da Chapada. As crianças nas calçadas, as moças  com seus cabelos afro assumidos, os cachorros e os gatos nas janelas, tudo isso encanta.

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Lençóis, Chapada Diamantina (BA)

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Lençois, Chapada Diamantina

A Casa de Cultura  Afrânio Peixoto, Rancho do Garimpeiro,  Praça do Coreto, Prédio do Ipham, Museu do Garimpo (não fomos, mas foi indicado), Igreja de Nossa Senhora do Rosário e do Senhor dos Passos,  são alguns dos passeios na cidade. Vimos as duas igrejinhas somente pelo lado de fora, pois nunca as encontramos abertas.

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Casa do Garimpeiro, Prédio do IPham, Igreja Nossa Senhora dos Passos, Igreja Nossa Senhora do Rosário e Casa de Cultura Afrânio Peixoto

Mulheres, crianças e adolescentes lavavam roupas na beira do Rio Lençóis no domingo pela manhã. Trata-se de um costume local ensinar esse oficio às crianças.

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Lavagem de roupas à beira do Rio Lençóis

A rodoviária em uma ponta de esquina, o prédio onde nos tempos áureos dos diamantes, um dia se instalou o vice-consulado da França, a Ponte dos Arcos e o Mercado Municipal ao fundo.

Ex Vice-Consulado da França, rodoviária e |Ponte dos Arcos com Mercado Municipal ao fundo.
Ex Vice-Consulado da França, rodoviária e  Ponte dos Arcos com Mercado Municipal ao fundo.

Para mim a essência de um lugar está nos pequenos detalhes, na contemplação do dia-a dia das pessoas e na feição dos seus rostos.

A essência de um lugar está no seu povo
A essência de um lugar está no seu povo, Lencóis
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Casas de paredes coloridas e varais na calçada em Lençois na Chapada Diamantina.

A ONG Grãos de Luz e Griô tem  projetos de educação para crianças e adolescentes. Além de várias oficinas de artes, inserção de midias e discussões críticas são ministradas aulas de preparação para o ENEM  no local “como não existem universidades próxima sem esse estímulo  os adolescentes acabam por desistir do ensino superior”.

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Grãos de Luz e Griô, em Lençóis.

Os atrativos naturais

Existem várias agências de turismo em Lençóis que fazem os passeios na Chapada. Como mencionei anteriormente nosso foco foi o de fazer aqueles que são próximos da cidade. A  Cachoeira do Mosquito, Rio Mucugezinho e Morro do Pai Inácio, fizemos  em um único dia com a Venturas. Nosso guia foi o Itamar, super gente fina. Contratamos o passeio no dia que chegamos. Nada programado com antecedência.

Cachoeira do Mosquito.
Cachoeira do Mosquito. Vista do Miradouro e por baixo.

A trilha para chegar na cachoeira, que fica dentro de uma propriedade particular, é leve. Fica a uns 40 km de Lençóis, sendo metade do caminho estrada de terra e a outra metade  asfalto.

O Morro do Pai Inácio é o ícone da Chapada Diamantina, ou pelo menos, dessa parte dela. A trilha para chegar no topo apesar de curta é um pouco íngreme em alguns trechos, exigindo um certo esforço, mas nada que alguém com um mínimo de preparo físico não consiga fazer.

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Morro do Pai Inácio (Foto: Ana Penteado)

“Ali mesmo o Morro do Pai Inácio é um mistério. Eternamente envolto em brumas, parece um castelo de granito talhado quase a prumo onde o vento das noites roça-lhe as bordas, gemendo e roncando, fantasmagórico e lúgubre” Rennée Lefevre.

Nosso segundo dia em Lençóis foi dedicado aos passeios que não necessitam de carro. De manhã saímos com o Rai, guia da Agência Venturas, para a Cachoeira  Ribeirão do Meio, regressamos para um almoço no restaurante “O Bode”, onde experimentei pela primeira vez o fatiado de palmas, que é um cactos, de origem mexicana, largamente difundido no nordeste brasileiro. Vimos uma plantação desse cactos no dia que fomos às grutas Azul e da Pratinha.

Plantação de Palmas
Plantação de palmas

À tarde passeamos pelo Serrano, Cachoeirinha e Salão das Areias Coloridas.

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Salão das Areias Coloridas, na foto da direita nosso guia Rai da agência Venturas

O Serrano é um pequeno trecho do Rio Lençóis, cerca de 15 min da cidade, onde a cabeceira do rio é uma superfície rochosa lisa com várias piscinas naturais.

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Serrrano com suas piscinas naturais e Cachoeirinha

Contratamos o serviço da agência Volta ao Parque para conhecer a Serra das Paridas, um dos maiores sítios arqueológicos da Bahia. Esse passeio pode ser feito tranquilamente em meio dia e é uma boa opção para intercalar entre as trilhas ou passeios mais puxados.

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Serra das Paridas

Para visitar a Caverna da Torrinha, Grutas Azul e Pratinha é necessário um dia todo. Fomos com um guia contratado, tipo free-lance. Tem muitos em Lençóis.

Você é claustrofóbico(a)? Eu sou um pouco. Não sabia se iria suportar ficar 3 horas dentro dessa caverna. Sim. Esse é o tempo para conhecê-la. Existem trechos que você literalmente tem que engatinhar, devido à altura do teto. No fim deu tudo certo.

A “flor de aragonita” na foto abaixo é a única no mundo. Existem várias formações interessantes e salões enormes que se revezam com os ambientes mais apertadinhos.

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Caverna da Torrinha e formações internas incluindo, cristais (à esquerda) e a  “flor de aragonita” (ao lado) que é a única existente no mundo.

As Grutas Azul e da Pratinha ficam praticamente lado a lado, dentro de uma propriedade particular. Na Gruta Azul não é permitido entrar e existe um horário especifico para ver o feixe de luz que ilumina as águas conferindo a coloração azulada maravilhosa, geralmente entre as 14 e 15horas. Difícil mesmo foi  conseguir tirar um foto razoável dessa belezura toda.

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Gruta Azul

Na Gruta da Pratinha só é permitida a flutuação. Preferi a contemplação.

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Gruta da Pratinha

A Comunidade de Quilombolas do Remanso fica a uns 18km de Lençois, sendo que boa parte do trajeto é feito em estrada de terra. É de lá que sai o  de canoa no Marimbus ou mini-pantanal. O ponto final é a Cachoeira do Roncador. Fechamos esse passeio com a Associação dos Guias de Lençóis.

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Marimbus ou mini-pantanal é o nome local para um enorme brejo de água doce formado pela confluência de dois rios, o Santo Antonio e o Utinga. Ocupa uma área de cerca de 30 km de extensão com a largura variando de poucos metros a vários quilômetros. É quase totalmente coberto  por plantas semi-aquática.

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Plantas semi-aquáticas no Marimbus ou mini-pantanal.

Os quilombolas são os descendentes dos habitantes dos quilombos, locais de refúgios dos escravos africanos e afro-descendentes. No Brasil abrigavam  também minorias indígenas e brancas (Fonte: Wikipédia).

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O Samuel da  Zen tour foi o nosso guia na trilha para Cachoeira do Sossego. Cara dez! Não é indicado fazer esse passeio com chuva. Na beira do rio tem muitas pedras escorregadias e o nível d´água pode subir de uma hora para outra. Contam que certa vez um pessoal ficou em cima de uma rocha até 10 horas da noite esperando a água baixar. Por esse motivo, quando faltavam uns 20 minutos para chegar na cachoeira, tivemos que retornar, pois caiu um agueiro. Mesmo assim valeu muito o passeio.Voltei com uma certeza: para um segundo “ataque” à Chapada  preciso reforçar o treino na academia e fortalecer mais os joelhos.

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Trilha para a Cachoeira do Sossego e Ribeirão de Cima. Na última foto da direita, a turma da empreitada ((Ana, Luis, Camila e nosso guia Samuel).

Comilanças

Além do Restaurante O Bode, indico o Quilombolas, O Lampião e o Becos Bar onde você encontra a melhor comidinha caseira de Lençóis, a da Dona Ivanira. Não perca o crepe de chocolate do Café do Mato. Para os amantes de pizza indico a Pizza da Gente, simples, boa e barata. O Sabor da Serra tem pratos excelentes. Se você aprecia  cervejas artesanais e cachaça, não deixe de conhecer o Empório Lençóis da simpática Audrey. Para o viciados em café, como eu, achei um lugar onde fazem café com coador de pano, o Garimpo Café.

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Pizza da Gente, Becos Bar, Garimpo Café, cerveja artesanal nômades na Empório Lençóis e o crepe de chocolate no Café da Mata

Dicas importantes:

  1. A única agência bancária que existe na cidade é a do Banco do Brasil.
  2. A única rede de canal de televisão não paga é a Globo.
  3. Não faça passeios/trilhas sem guias. Não queira economizar com segurança. É preciso conhecer o lugar, saber onde se pode entrar, nadar, etc.
  4. Leve botas para trilhas. Fui com tênis com solado liso, aqueles de corrida, não é o mais apropriado, ou melhor, nada adequado.
  5. Se o seu hotel ou pousada não oferecer transfer do aeroporto para Lençóis, tenha certeza que encontrará outros passageiros do voo na mesma situação, daí é só rachar uma condução (em média sai R$25,00/pessoa).

Fonte:

Funch, Roy. A Visitor´s Guide to the Chapada Diamantina Mountains.

Espero que tenha ajudado de alguma forma. Ficaria muito feliz se pudesse deixar um comentário prá mim!

 

Fernanda Moretzsohn

Olá, eu sou a Fernanda. Mãe de três. Casada. Viciada em leitura e café. Apaixonada por aventuras e natureza. Adoro malhar e sentar no chão. Detesto água fria, shoppings e fazer compras. Acho que temos o suficiente e que perdemos muito do nosso precioso tempo de vida com compromissos desnecessários e preocupações fúteis. Sou consumista, de viagens. Quando aparece uma chance faço uma malinha enxuta e embarco! No avião, trem, carro ou canoa, tanto faz. Melhor ainda se for a pé. Adoro compartilhar o que tem nesse nosso mundão com você. Me acompanha?

6 comentários sobre “Os cantos e encantos da Chapada Diamantina-Parte 1

  • Marta 16 de setembro de 2016 at 17:16 Reply

    Belas imagens e ótimas dicas, Fernanda! O bom da mala “recordação” é que quanto mais cheia, mais leve fica.

    • Fernanda Moretzsohn 16 de setembro de 2016 at 20:47 Reply

      Isso mesmo, Marta! E recordações, ninguém te rouba, ninguém te tira. Gratíssima pelo comentário. Um ótimo fim de semana prá vc. bjs 🙂

  • Tina Zani 16 de setembro de 2016 at 21:18 Reply

    as fotos estão lindas!!! um dia quero conhecer 😀 não consegui ver a foto da Gruta da Pratinha… Ah, adorei o novo design do blog.

    • Fernanda Moretzsohn 16 de setembro de 2016 at 22:19 Reply

      Ah Tinoca, o link estava quebrado, já consertei (acho). Quem sabe voltamos juntas? Mas é preciso reforçar muito o joelho. As trilhas são puxadas, mas maravilhosas.

  • Marcos 20 de setembro de 2016 at 17:43 Reply

    Muito bom! Preciso conhecer. Boas dicas Fernanda.

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